Quem ainda brinca de criança no domingo de Páscoa e esconde ovos de chocolate no jardim? Resta em nós uma perene idade da inocência. Nostálgicos, evocamos as missas de domingo, as procissões sob andores, o toque salvífico da água benta, o silencia acolhedor de igrejas.
Jesus ressuscitou! – celebra esta festa de aleluias.
Ainda que razão não alcance a dimensão do fato pascal, a intuição capta a crise da modernidade a nos induzir a um mundo sem mistérios e enigmas. Entre angústias e utopias, o último século foi também marcado pelo enigma Jesus.
Deus que se fez homem e, de homem, virou pão. Pai Nosso/pão nosso.
A fé cristã não proclama a ressurreição da alma, mas “da carne”. Jesus é o judeu crucificado, por razões político-religiosas, nas Palestina do Século I, e cujas aparições, como ressuscitado, contradizem as regras da ficção literária. Que o autor criaria um personagem imortal com chagas nas mãos e ansioso por comida? As narrativas evangélicas são, tecnicamente, descrições de fato objetivo. À luz da fé, proclamação de que Jesus é o Cristo.
Antes de cair em mãos de repressão que o assassinou, Jesus fez-se comida e bebida. Poeta e profeta, dominava a linguagem realistas dos símbolos. O pão re partido passar a ser corpo divino; o vinho partilhado, aliança feita com sangue e prenúncio da festa sem fim.
Páscoa é travessia – também para uma ética política, que torne o pão acessível a cada boca, e o vinho, alegria em cada alma. Somos nós que, em vida, precisamos ressuscitar as potencialidades do espírito, premissas e promessas de uma verdadeira dignidade humana.
Autor: Frei Betto
domingo, 23 de março de 2008
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